sábado, 25 de abril de 2020

No Whats fico perto de você ou Onde está minha baixa estima? Não me conte!

10/04/2020

INTRODUÇÃO

Cresci morando com o meu sobrinho e sempre ter a sua companhia era regra. Estávamos sempre juntos no filme
e no desenho, na brincadeira e na hora de dormir. 
Apesar de brigas e chatices mútuas nunca pensei que sentiria um vazio tão notório como senti quando ele partiu para morar com a mãe.

A noite podia ser silenciosa e eu não sabia disso até aquele momento. Mas quem disse que alguém dessa casa
queria essa calmaria? Um dia, dois, 3 semanas tudo bem. Agora sem limites, de certa forma "pra sempre"?

Obviamente que mesmo antes dele partir o sentimento citado não me era inédito, sempre vamos nos sentir assim pelo menos algumas vezes na vida, logo, eu não falharia com essa regra. E nas pontuais tardes solitárias da pré-adolescência eu já sabia o que era estar sem estímulos alheios. Nem mesmo o computador e suas milhares de horas de pornografia e conteúdos variados eram suficientes para calar o incômodo que o silencio causava. Enquanto eu me entupia de conteúdos várias eu queria que alguém estivesse pelo menos ali comigo.

A solução sempre era a TV. Ligá-la e varrer o "estar só" pra de baixo do tapete.
Hoje o equivalente a isso seria o agregador de podcast, que faz mais do que a TV fazia na época já que é literalmente uma conversa com você.

Mas as emissoras quebravam o galho. Principalmente porque distrair uma criança sem nenhuma responsabilidade ou preocupações era uma tarefa tola, sim, fácil. Bons tempos de quando cultivava a mediocridade que hoje colho.

Dê comigo um salto no tempo e se transporte para uns 8, 9, 10 anos no futuro. O que vê? Um adulto semi-inconsequente com dificuldade de persistir, com um tato social e uma estima própria inconstantes, problemas com pornografia e com pontuais "vontade de morrer".

Nesse ponto nem a televisão responsável pelo conforto do passado, nem youtube e podcast são suficientes para livrar o eu lírico de um poço de solidão. 
Tendo, vale frizar, youtube, pornô e entretenimentos variados se tornado também problemas na vida, ou seja, proporcionando danos ao invés de apenas distração.

Para grande alívio, nem tudo se perdeu. Certa maturidade e um pouco de inteligência emocional também encontraram seu lugar no meio desse caos interno. E essas duas coisinhas são uma bênção e dois passos a frente para uma mudança.

QUARENTENA

Cheguemos a 2020 e também à crise da pandemia da Covid-19. Quarentena nessas situações são inevitáveis, então horas de solidão, preocupação e tédio seriam o banquete desse período apocalíptico.

Então em pouco tempo de isolamento o esperado aconteceu, tristeza e melancolia decorrentes da falta do que fazer e do lack de contato humano. A melhor chance de fugir disso seria uma falsa conexão com pessoas através de chats na internet.

Whatsapp? Não. Buzzr.

O BUZZR, chat de texto para se conectar com desconhecidos anônimos, se tornou o point do isolamento. O lugar é um paraíso para deixar o relógio correr sem se preocupar, a fuga perfeita. 
O contato simplório que esse site proporciona já é o suficiente para dar a falsa sensação de conforto e de que há a "presença" de alguém conosco.
Horas e horas foram gastas minerando entre tarados de 40 anos para tentar encontrar alguém que propiciaria aquela conversa legal e entorpecente.

E finalmente chego no ponto de todo esse texto. 
Pois bem, pergunte-me, por que pessoas estranhas e anônimas ao invés de contatos mais próximos? Ok, se distrair e lidar com pessoas aleatórias na internet pode ser divertido, mas unicamente isso? Por que evitar os contatos do whatsapp?

Porque apenas o número da pessoa está próximo a mim, o ser humano referente, não.

Só uma cidadã sugava minha atenção, Kauany. Uma paixonite por ela retornou nessa quarentena, alimentado por termos saído juntos 2 semanas antes da suspensão da vida cotidiana. Foi literalmente nada além de um rolé casual. Só que a solidão junto com tesão acumulado engolem sua mente em situações de quarentena.

Dia dia, entre tédio e horror(maravilha), a vontade de falar com ela só crescia. Aquela coisa bem cinematográfica de ficar com alguém a todo momento na cabeça, como naquelas montagens genéricas de comédias românticas.
Então eram horas olhando status, foto e pensando desesperadamente no que fazer para conseguir iniciar uma nova troca de mensagens entre nós dois. 

Quando esse momento vinha, a conversa acabava tomando longos espaços de tempo. O que trazia a dúvida do que ela tava fazendo ali. Essa moça não tinha nada melhor pra fazer ou ela não sabe dizer não. Eu não sei.

E as conversas sempre ganhavam grande corpo. Entretanto, a cada "boa noite" e a cada "tchau" vinha a ressaca da conversa, a queda da ficha. 
A sensação de ter gasto tanta digital escrevendo, mas que com aquilo nada ia nascendo - Precisava dessa rima aqui -.

Como assim nada nascendo? Ora, eu não queria apenas ter um boa conversa, eu queria mais. Ok, essa vontade era duvidosa e manipulada por desespero e isolamento, mas a questão é que existia. Porém, eu nunca alcançava nada. não passava de puro papo casual. Preciso deixar mais explicito, eu não conseguia deixar claro o que eu queria.

E no natural desenrolar da conversa eu nada construía. A toques de entrar em contato com ela, ouvir sua vós, ter sua atenção e tudo não levando a lugar nenhum.

A GRANDE QUESTÃO

Meio que esse caso se estende para as demais pessoas. Tô tão perto de todo mundo, mas eu sou distante de todos.

Aqui retorna a questão que amizades realmente profundas eu quase nunca desenvolvi. Todo mundo, não importa o tempo gasto junto, não tem conexão e intimidade suficiente com a minha pessoa. Em resumo, ninguém tem muito porque entrar em contato comigo. Só entramos em toque pelo whastapp hiper pontualmente. Isso mesmo com os mais chegados.

E isso é naturalmente o reflexo de meu comportamento e personalidade. Apesar das bebedeiras, das brincadeiras, encontros e palhaçadas, eu sou muito fechado e menos propenso a "chamar atenção". As pessoas não me odeiam, são só as minhas características que criam esse tipo de relação mais distante. 

Porém, sempre vem aquele "e se". E se eu fosse diferente, e se eu quisesse ser mais próximo de mais pessoas. Ter mais amigos perto de verdade, mais relacionamentos.
Esses pensamentos são acentuados pelo atual momento, mas não são novos, são receios/perguntas antigas.

Tantos contatos, mas com quantos eu pude realmente ter um contato? Companhia é super estimado, creio nisso, mas tê-los digitalmente perto, mas emocionalmente(?) distantes é o que mais me deixou para baixo durante esse período de sítio.

Resultante disso, em um momento de raiva analisei cada pessoa na lista de números do zapo zapo. Saí varrendo cada uma que eu não tinha o porquê tê-lá ali. Como se isso tirasse qualquer expectativa que eu tivesse em ter um contato com elas, em muitos casos em nem queria, mas sabe, ficamos emocionais demais em momentos assim.

Esse detox foi começo de atitudes que mudaram o rumo da quarentena. 
Aqui eu retorno a uma ideia já publicada lá em Abril: Toda essa situação, todo esse incômodo foi útil para a minha pessoa. O tempo dado pelo corona me serviu.

O primeiro bom resultado foi a decisão de abrir mão do celular por pelo menos uma semana e assim fugir da Kauany e da paranoia da falta de contato.
Você não imagina o bem que isso está fazendo para minha cabeça. Estou no 19º dia longe do celular e(na verdade, só agora chego na real conclusão que iniciei lá em cima, hahaha) notei que a solidão sumiu.

CHEGAMOS EM ALGUM LUGAR

Após tanta tecla gasta a conclusão é que ter gente, através de redes sociais, tão perto mesmo estando distante socialmente e emocionalmente, maximiza a delirante sensação de "aperto no coração". Como se o whatsapp estivesse servindo de vitrine para expôr às minhas faculdades mentais debilitadas pela tristeza o quanta gente eu perco, quando, na realidade, eu não estou perdendo nada.

Eu não tinha necessidade de estar colado com as pessoas, era aquela quantidade de avatares que me faziam acreditar que eu precisava dessa proximidade. Mas a realidade é que sempre soube que momentos de solitude são perfeitos. Ora, eles que me propiciam escrever textos iguais a esse e aproveitar o processo.

A necessidade de falar com alguém sumiu. Agora o tempo gasto enchendo o saco de gente no zap está sendo usado para hobbies, afazeres e dormir. Tem como ficar melhor?

Então, Uau! Manter-me distante da ferramenta de comunicação me libertou do casco dessa maldita solidão. Droga, rima não intencional de novo. Desculpe, é que eu estou realmente curtindo a escrita disso aqui. 
Pra você ter noção, eu não entoei nenhuma vez que esse texto é "droga", "merda" ou "pretensioso". ONDE ESTÁ MINHA BAIXA ESTIMA? Por favor, não me conte.

ALGO MAIS?

Pela primeira vez na vida estou vendo aquela velha frase de coach, "Tenha uma vida, não fique encanado em uma mina, um amigo, uma só coisa. vá viver que o mundo flui", sendo realidade - e o mais louco - na minha vida.

Não fiquemos empacados iguais burros e que possamos deixar os portões abertos para mais e mais coisas.

Fim.

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