10/04/2020
INTRODUÇÃO
Cresci morando com o meu sobrinho e sempre ter a sua companhia era regra. Estávamos sempre juntos no filme
e no desenho, na brincadeira e na hora de dormir.
Apesar de brigas e chatices mútuas nunca pensei que sentiria um vazio tão notório como senti quando ele partiu para morar com a mãe.
A noite podia ser silenciosa e eu não sabia disso até aquele momento. Mas quem disse que alguém dessa casa
queria essa calmaria? Um dia, dois, 3 semanas tudo bem. Agora sem limites, de certa forma "pra sempre"?
Obviamente que mesmo antes dele partir o sentimento citado não me era inédito, sempre vamos nos sentir assim pelo menos algumas vezes na vida, logo, eu não falharia com essa regra. E nas pontuais tardes solitárias da pré-adolescência eu já sabia o que era estar sem estímulos alheios. Nem mesmo o computador e suas milhares de horas de pornografia e conteúdos variados eram suficientes para calar o incômodo que o silencio causava. Enquanto eu me entupia de conteúdos várias eu queria que alguém estivesse pelo menos ali comigo.
A solução sempre era a TV. Ligá-la e varrer o "estar só" pra de baixo do tapete.
Hoje o equivalente a isso seria o agregador de podcast, que faz mais do que a TV fazia na época já que é literalmente uma conversa com você.
Mas as emissoras quebravam o galho. Principalmente porque distrair uma criança sem nenhuma responsabilidade ou preocupações era uma tarefa tola, sim, fácil. Bons tempos de quando cultivava a mediocridade que hoje colho.
Dê comigo um salto no tempo e se transporte para uns 8, 9, 10 anos no futuro. O que vê? Um adulto semi-inconsequente com dificuldade de persistir, com um tato social e uma estima própria inconstantes, problemas com pornografia e com pontuais "vontade de morrer".
Nesse ponto nem a televisão responsável pelo conforto do passado, nem youtube e podcast são suficientes para livrar o eu lírico de um poço de solidão.
Tendo, vale frizar, youtube, pornô e entretenimentos variados se tornado também problemas na vida, ou seja, proporcionando danos ao invés de apenas distração.
Para grande alívio, nem tudo se perdeu. Certa maturidade e um pouco de inteligência emocional também encontraram seu lugar no meio desse caos interno. E essas duas coisinhas são uma bênção e dois passos a frente para uma mudança.
QUARENTENA
Cheguemos a 2020 e também à crise da pandemia da Covid-19. Quarentena nessas situações são inevitáveis, então horas de solidão, preocupação e tédio seriam o banquete desse período apocalíptico.
Então em pouco tempo de isolamento o esperado aconteceu, tristeza e melancolia decorrentes da falta do que fazer e do lack de contato humano. A melhor chance de fugir disso seria uma falsa conexão com pessoas através de chats na internet.
Whatsapp? Não. Buzzr.
O BUZZR, chat de texto para se conectar com desconhecidos anônimos, se tornou o point do isolamento. O lugar é um paraíso para deixar o relógio correr sem se preocupar, a fuga perfeita.
O contato simplório que esse site proporciona já é o suficiente para dar a falsa sensação de conforto e de que há a "presença" de alguém conosco.
Horas e horas foram gastas minerando entre tarados de 40 anos para tentar encontrar alguém que propiciaria aquela conversa legal e entorpecente.
E finalmente chego no ponto de todo esse texto.
Pois bem, pergunte-me, por que pessoas estranhas e anônimas ao invés de contatos mais próximos? Ok, se distrair e lidar com pessoas aleatórias na internet pode ser divertido, mas unicamente isso? Por que evitar os contatos do whatsapp?
Porque apenas o número da pessoa está próximo a mim, o ser humano referente, não.
Só uma cidadã sugava minha atenção, Kauany. Uma paixonite por ela retornou nessa quarentena, alimentado por termos saído juntos 2 semanas antes da suspensão da vida cotidiana. Foi literalmente nada além de um rolé casual. Só que a solidão junto com tesão acumulado engolem sua mente em situações de quarentena.
Dia dia, entre tédio e horror(maravilha), a vontade de falar com ela só crescia. Aquela coisa bem cinematográfica de ficar com alguém a todo momento na cabeça, como naquelas montagens genéricas de comédias românticas.
Então eram horas olhando status, foto e pensando desesperadamente no que fazer para conseguir iniciar uma nova troca de mensagens entre nós dois.
Quando esse momento vinha, a conversa acabava tomando longos espaços de tempo. O que trazia a dúvida do que ela tava fazendo ali. Essa moça não tinha nada melhor pra fazer ou ela não sabe dizer não. Eu não sei.
E as conversas sempre ganhavam grande corpo. Entretanto, a cada "boa noite" e a cada "tchau" vinha a ressaca da conversa, a queda da ficha.
A sensação de ter gasto tanta digital escrevendo, mas que com aquilo nada ia nascendo - Precisava dessa rima aqui -.
Como assim nada nascendo? Ora, eu não queria apenas ter um boa conversa, eu queria mais. Ok, essa vontade era duvidosa e manipulada por desespero e isolamento, mas a questão é que existia. Porém, eu nunca alcançava nada. não passava de puro papo casual. Preciso deixar mais explicito, eu não conseguia deixar claro o que eu queria.
E no natural desenrolar da conversa eu nada construía. A toques de entrar em contato com ela, ouvir sua vós, ter sua atenção e tudo não levando a lugar nenhum.
A GRANDE QUESTÃO
Meio que esse caso se estende para as demais pessoas. Tô tão perto de todo mundo, mas eu sou distante de todos.
Aqui retorna a questão que amizades realmente profundas eu quase nunca desenvolvi. Todo mundo, não importa o tempo gasto junto, não tem conexão e intimidade suficiente com a minha pessoa. Em resumo, ninguém tem muito porque entrar em contato comigo. Só entramos em toque pelo whastapp hiper pontualmente. Isso mesmo com os mais chegados.
E isso é naturalmente o reflexo de meu comportamento e personalidade. Apesar das bebedeiras, das brincadeiras, encontros e palhaçadas, eu sou muito fechado e menos propenso a "chamar atenção". As pessoas não me odeiam, são só as minhas características que criam esse tipo de relação mais distante.
Porém, sempre vem aquele "e se". E se eu fosse diferente, e se eu quisesse ser mais próximo de mais pessoas. Ter mais amigos perto de verdade, mais relacionamentos.
Esses pensamentos são acentuados pelo atual momento, mas não são novos, são receios/perguntas antigas.
Tantos contatos, mas com quantos eu pude realmente ter um contato? Companhia é super estimado, creio nisso, mas tê-los digitalmente perto, mas emocionalmente(?) distantes é o que mais me deixou para baixo durante esse período de sítio.
Resultante disso, em um momento de raiva analisei cada pessoa na lista de números do zapo zapo. Saí varrendo cada uma que eu não tinha o porquê tê-lá ali. Como se isso tirasse qualquer expectativa que eu tivesse em ter um contato com elas, em muitos casos em nem queria, mas sabe, ficamos emocionais demais em momentos assim.
Esse detox foi começo de atitudes que mudaram o rumo da quarentena.
Aqui eu retorno a uma ideia já publicada lá em Abril: Toda essa situação, todo esse incômodo foi útil para a minha pessoa. O tempo dado pelo corona me serviu.
O primeiro bom resultado foi a decisão de abrir mão do celular por pelo menos uma semana e assim fugir da Kauany e da paranoia da falta de contato.
Você não imagina o bem que isso está fazendo para minha cabeça. Estou no 19º dia longe do celular e(na verdade, só agora chego na real conclusão que iniciei lá em cima, hahaha) notei que a solidão sumiu.
CHEGAMOS EM ALGUM LUGAR
Após tanta tecla gasta a conclusão é que ter gente, através de redes sociais, tão perto mesmo estando distante socialmente e emocionalmente, maximiza a delirante sensação de "aperto no coração". Como se o whatsapp estivesse servindo de vitrine para expôr às minhas faculdades mentais debilitadas pela tristeza o quanta gente eu perco, quando, na realidade, eu não estou perdendo nada.
Eu não tinha necessidade de estar colado com as pessoas, era aquela quantidade de avatares que me faziam acreditar que eu precisava dessa proximidade. Mas a realidade é que sempre soube que momentos de solitude são perfeitos. Ora, eles que me propiciam escrever textos iguais a esse e aproveitar o processo.
A necessidade de falar com alguém sumiu. Agora o tempo gasto enchendo o saco de gente no zap está sendo usado para hobbies, afazeres e dormir. Tem como ficar melhor?
Então, Uau! Manter-me distante da ferramenta de comunicação me libertou do casco dessa maldita solidão. Droga, rima não intencional de novo. Desculpe, é que eu estou realmente curtindo a escrita disso aqui.
Pra você ter noção, eu não entoei nenhuma vez que esse texto é "droga", "merda" ou "pretensioso". ONDE ESTÁ MINHA BAIXA ESTIMA? Por favor, não me conte.
ALGO MAIS?
Pela primeira vez na vida estou vendo aquela velha frase de coach, "Tenha uma vida, não fique encanado em uma mina, um amigo, uma só coisa. vá viver que o mundo flui", sendo realidade - e o mais louco - na minha vida.
Não fiquemos empacados iguais burros e que possamos deixar os portões abertos para mais e mais coisas.
Fim.
sábado, 25 de abril de 2020
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Relacionamento Aberto com o Medo
O aumento da auto estima vem me afastando de velhos medos corriqueiros.
É uma liberdade estar em momentos assim. Quando 1, 2, 5, 27 dias começam a passar, dá pra sentir os receios indo embora como espinhas que saem do rosto.
Assim vem a possibilidade de estar saudável e finalmente ter mente para conseguir o quero:
uma vida social, tato social, um amor casual, um toque não esbarrado, normal...
O que nos acontece então é que, igual filme, na vida sempre tem um novo conflito pra manter a audiência
engajada. Pois bem, graças a isso, essa boa notícia vem acompanhada de novos medos, receios.
As pessoas são água, umas vão ser sólidas, outras líquidas, isso pelo bem da pluralidade
e livre arbítrio nosso de cada momento.
Vou além e digo que não somos apenas líquidos na vida, na sociedade contemporânea, somos a mudança de estado, somos o tornar diferente. Somos a ebulição, o processo de solidez.
Nisso está pautada a minha insegurança para com relacionamentos. As pessoas mudam, enjoam.
Essa é a regra. Ninguém prima igual nas coisas mesmas eternamente.
E observar os meus irmãos e replicadas não exatas deles nos filmes criaram essa base para essa minha falta
de confiança.
Homens cativantes, cheios de si(não num sentido ruim), desenrolados em todos os aspectos da vida,
eloquentes com estranhos, amigos ou com línguas molhadas de mulheres arrebatáveis, seja lá o que você entender por arrebatável.
Vê-los manuseando-as como peças de um quebra cabeça.
A sedução sendo aplicada de forma satisfatória. Não por causa de regras de coachs contemporâneos, mas somente pela naturalidade de quem apenas sabe, aprendeu enquanto vivo.
É a ideia de que no geral a mulher têm gatilhos que quando bem ativados fazem o corpo fluir, o sangue esquentar e qualquer clima amornar?
Mas não temos isso todos nós humanos?
A questão é que eu fui criado refém da imagem que o homem deve seguir. Infelizmente eu não possuo
tal imagem. Sou o contrario disso.
Logo, seria quase regra(hipérbole) que eu seja o causador de tédio em parceiras. Fora esse motivo que poderia ser o causador de me trocarem, há o fato da comparação. O que eu faço se aparecer alguém mais algo do que eu?
Não posso fazer nada se isso acontecer, ninguém pode.
Mas como poderia eu não ter os gatilhos perfeitos pra isso, para ser passível de traírem-me?
O galante que chegar nela seria facilmente mais do que eu. E se for e a traição vier. Esse é o problema.
Todo a mentira, situação que isso causa. Arh.
Esse medo me fez pensar mais sobre relacionamentos abertos. A escolha perfeita pra quem teme a traição.
É o que vem a minha mente há um tempo. Só o desapego de alguém, ou melhor, o nunca apegar-se seria
o melhor remédio contra todo esse medo.
Por que assumiria algo que eu tenho grandes chances de fracassar ao invés de ter os benefícios sem
o medo da enganação?
O medo me faz querer aceitar que ter um relacionamento aberto seria o ideal pra alguém com tão poucas
qualidades.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
1 Mês e 10 Dias
Após 1 mês e 11 dias nesse caminho, é a primeira vez que consigo chegar a
10 dias ininteruptos em uma streak.
É bom pensar no quanto tempo eu já teria economizado se estive sem cair desde do dia 29 de fevereiro.
Quando se trata de uma mudança, de um tratamento o tempo teima em esquecer de andar.
E nem adianta bater, ele continuará empacado na sua própria velocidade.
Mas também é justo lembrar que a quarentena é cumplice de toda essa demora, maldita.
1 mês e 10 dias para conseguir os primeiros 10 dias. Uau, ainda é pouco.
Só que apesar de tudo, o melhor do tempo é que ele passa.
Provavel deve ser que a quarentena ajudou a chegar até aqui, já que fez o favor
de afastar os problemas da vida real, as aulas, as conversas, as interações e os milhões de pensamentos
decorrente destas.
Geralmente estou só eu e minhas ideias, mas dessa vez a solidão criou um timing e eventos perfeitos
para que eu tivesse observações, chegasse a conclusões e, finalmente, parcice para ações.
Bom, essa conquista veio em meio ao isolamento do covid-19, então nunca saberemos se mesmo sem a mudança de rotina, com a mentalidade ainda sendp aquela, o quão eu poderia ter cumprido o que aqui cumpri.
é provavel, e gosto da ideia, de que todo esse caos me proporcionou isso, essa possibilidade.
Apesar de tudo, esse caminho está sendo satisfatório.
Só espero que passe e que a morte mantenha distância, afinal ela já me ajudou muito, mas agora vá.
Pode ir, querida.
Assinar:
Postagens (Atom)